segunda-feira, 25 de julho de 2022

Crítica de "Cor de quê" - por Diogo Spinelli



Do que acontece entre.

Crítica de Diogo Spinelli para Cor de quê, da MASS Produção (Itajaí/SC)

Quando entramos no espaço cênico onde ocorre a obra Cor de quê, da MASS Produção (Itajaí/SC), as atrizes Ana Luiza Marcolina e Mariana Feitosa já estão propondo um jogo com o público: munidas de cestos com lápis-de-cor de variadas tonalidades, elas perguntam às e aos espectadores qual dentre aqueles lápis seria o mais aproximado da sua cor de pele, caso fossem retratá-las em um desenho.

A instigante proposta abre espaço para que possam ser introduzidas discussões sobre colorismo e outras questões raciais. Porém, ainda que esse seja o mote condutor da obra, o trabalho opta por não abordar essa problemática de forma explícita, nunca sendo enunciadas de fato as questões do racismo estrutural que persiste em nosso país. Na busca de aproximar a questão do universo infantil, temas sensíveis como a escravidão ou discriminação racial se fazem presentes no trabalho por meio de diferentes analogias em cada uma das três histórias contadas pelas atrizes. Contudo, a abordagem demasiada indireta desse conteúdo nas narrativas talvez acabe por servir mais ao público adulto, que compreende desde o início a proposição temática do espetáculo, do que ao público infantil a que ele foi originalmente direcionado.

É interessante notar que, por mais que sejam utilizados variados recursos teatrais (como o teatro de sombras e o teatro de bonecos) para a narração de cada uma das histórias, a potência do trabalho resida no que ocorre entre uma história e outra. Nesses momentos, nos quais Mariana e Ana Luiza propõe brincadeiras entre si ou com a participação das crianças, a obra cria junto ao público-mirim outra qualidade de evento que não é aquela associada via de regra à relação do ator-espectador no qual o primeiro realiza e o segundo assiste. Nesse outro fenômeno, muito mais próximo ao recreativo – sem que essa palavra seja utilizada depreciativamente, ao contrário – cria-se um espaço realmente dialógico e participativo do público ao qual o trabalho é destinado, e é também nele que as questões temáticas da obra encontram maior reverberação. Por mais que sejam exemplares as protagonistas das histórias narradas, é com as figuras das duas narradoras/atrizes com as quais realmente nos conectamos: é com elas que podemos concretamente nos identificar, com seus cabelos tonhonhoim e seus olhos de jabuticaba. E é também com elas que podemos debater, discordar, jogar e brincar.

Essa abertura para uma horizontalidade nas relações entre as e os espectadores e as atrizes, resulta em um diálogo vivo, real e sem filtros sobre o que está sendo dito ou visto em cena. Mais do que isso, quando todos estão jogando o mesmo jogo, começa a não haver mais uma hierarquização entre o que é dito ou feito em cena pelas atrizes, ou fora dela, pelas crianças: todos compartilham um mesmo fenômeno. Isso acontece não apenas no momento final do espetáculo, quando os espectadores-mirins são chamados a adentrarem a área cênica para que junto com as atrizes brinquem do jogo-música que acabaram de aprender, acompanhados dos aplausos ritmados do restante do público. Não. Isso ocorre diversas vezes ao longo do trabalho, sempre em que as atrizes interagem realmente com as crianças, as escutam e respondem incorporando no trabalho aquilo que lhes está sendo dito.

No entanto, por mais que exista o convite para essa relação, e que vejamos de fato sua efetivação, ela é limitada pela necessidade das atrizes de voltarem ao roteiro do espetáculo. Evidentemente, se não houvesse essa contenção, a obra se desenvolveria por caminhos imprevisíveis, podendo cruzar inclusive as fronteiras do que entendemos como o que deveria ser uma obra teatral. O que é isso que acabamos de presenciar? Talvez se perguntassem alguns adultos. Porém, não sei se a mesma questão seria relevante para as crianças que tivessem tomado parte desse evento imaginário. Encaixar-se em uma categoria às vezes exige que tolhemos potências, e, como diz Mariana em um momento do espetáculo, seria interessante poder ver o que Cor de quê se tornaria se pudesse ser o que quiser.

Os espaços de interação propostos no trabalho fazem questionar sobre as possibilidades de se criar uma obra em que, mais do que mostrar ou falar sobre uma temática, seja possível propor aos espectadores (sejam eles mirins ou não) operar conjuntamente dispositivos (jogos, brincadeiras, e o que mais fosse possível imaginar) sobre um tema, sem a necessidade de se haver um caminho ou um fim previamente traçados. Certamente há uma radicalidade nessa proposta, e seria necessário dispor-se ao risco de que a obra a ser criada fosse fruto da responsabilidade compartilhada com cada espectador e espectadora que frequentasse cada sessão.

Ainda que em grau bastante menor, fenômeno semelhante ocorre em Cor de quê: a obra a que eu assisti seria outra, caso não houvessem ou fossem outras as intervenções de João, de Helô e de outros pequenos espectadores ao longo de toda a encenação, já que a abertura ao diálogo proposto no trabalho realmente interfere na fruição de cada sessão.

Nesse sentido, é bastante acertada a proposição de convidar as crianças do público a ocuparem os tatames em frente ao espaço cênico, separadas dos adultos que as levaram até ali. Isso faz com que haja uma maior independência para que a interação e as brincadeiras se estabeleçam entre as atrizes e elas de forma mais livre. A única ressalva a se fazer é aquela relativa à segurança das crianças quando são convidadas a ocupar o espaço cênico, devido à presença das lâmpadas expostas na ribalta que compõem a enxuta cenografia do trabalho. Além de evitar possíveis acidentes, a supressão ou adaptação desse elemento cenográfico fará com que tanto os pais quanto os demais adultos da plateia contemplem esse momento com ainda mais imersão, celebrando a criação daquela pequena comunidade efêmera que se estabelece quando cantamos e brincamos juntos, independente de nossas distinções.

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