quarta-feira, 27 de julho de 2022

Crítica de "Contestados" - por Heloísa Sousa

CONTESTADOS

Cia. Mútua (SC)


[Terra e Pertencimento]

O primeiro homem que inventou de cercar uma parcela de terra e dizer, ‘isto é meu’, [...] foi o autêntico fundador da sociedade civil. De quantos crimes, guerras, assassínios, desgraças e horrores teria livrado a humanidade se aquele, arrancando as cercas, tivesse gritado: ‘Não, impostor’”. (Jean-Jacques Rousseau).

Essa é uma frase dita nas primeiras cenas de “Estudo No. 1 Morte e Vida” do Grupo Magiluth (PE) e que abre a programação desta edição do Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha.

A organização da sociedade em uma estrutura capitalista reforça a conquista e acúmulo de propriedades privadas como meta, desejo e sinal de liberdade, o que fundamenta uma série de desigualdades sociais, privação de direitos humanos básicos e exploração de recursos naturais. Karl Marx elabora toda uma teoria crítica a essa estrutura, seguido de muitos outros sociólogos e teóricos políticos que nos apontam as problemáticas do liberalismo. Não à toa, “comunista” torna-se xingamento antigo em nosso país para todo aquele que questione a lógica predatória capitalista.

A quem pertence a terra? E a que terra pertencemos?

Esse jogo discursivo da terra como propriedade e como identificação inicia o espetáculo “Contestados” da Cia. Mútua (SC) apresentado durante o mesmo festival.

De onde você é? Isso significa onde eu nasci, onde eu moro, onde eu vivi maior parte do tempo, para onde eu voltei ou o lugar com o qual me identifico afetivamente? Quais sinais culturais grafados no seu corpo e o que eles revelam? O que é ser catarinense? O que é ser potiguar? O que é ser brasileiro?

O que é ser brasileiro nesse país chamado Brasil, uma ficção por si só, uma ferida colonial? A Pindorama sequestrada.

A Cia. Mútua, conhecida por seu trabalho com teatro de animação desde 1993, em Santa Catarina, apresenta um recorte histórico sobre a Região do Contestado no meio-oeste catarinense, mas que reapresenta uma recorrência de disputas e tomadas de terra que persistem no país até hoje. Usando o recurso do teatro de figuras planas, aos moldes do antigo teatro de papel, duas atrizes narram a história da região usando uma mesa repleta de quilos de terra, recursos cênicos direcionados a este espaço suspenso e várias figuras pintadas e recortadas em mdf. A tradição que alguns grupos em Santa Catarina parecem ter com o teatro de animação é algo destacável no cenário artístico nacional, a recorrência no trabalho com esse recurso cria um campo de pesquisa e experimentação aguçados. Há um apuramento técnico admirável envolvido na composição da mise-en-scene e na precisão coreográfica das atrizes para a manipulação de todas as figuras, movimentação fundamental para que se materialize a dramaturgia e o ritmo do espetáculo. Nessa operação não há muito espaço para o erro, o improviso ou imprecisões, porque são os braços das atrizes que constroem toda a paisagem em cena. Dialogar com Guilherme Peixoto, um dos integrantes do grupo, ao final do espetáculo pareceu essencial para fechar o ciclo da experiência da obra. A curiosidade fica latente pelo avesso daquela cena, seus modos de produção; subo ao palco quando não há mais público para observar de perto aquela cenografia, alguns minutos depois, outros artistas do teatro chegam junto para ouvir as explanações de Guilherme. Ele nos explica sobre a pesquisa do grupo, as visitas que fizeram à Região do Contestado, e como o grupo se compromete em contar essa história para que ela não seja apagada. Ele fala que essa foi uma das únicas revoltas brasileiras que se inicia após a morte de seus líderes e assemelha o conflito à Guerra do Vietnã pelas cenas de violência. Isso em um país onde somos convencidos, desde a escola, da narrativa de que não houve e nem há guerras por aqui, embora o Brasil tenha se fundado em cima em um dos maiores genocídios do mundo.

A narrativa nos é apresentada pelo grupo. Entre 1912 e 1916, naquelas terras viviam caboclos com suas rotinas e produções. Até que elas são vendidas pelo governo brasileiro, na época da presidência de Marechal Deodoro da Fonseca, para um empresário norte-americano que constrói uma ferrovia na região e desapropria várias famílias. As pessoas retiradas de suas terras se revoltam, se reorganizam e iniciam conflitos pela retomada da posse. Esses conflitos são combatidos pela força do exército militar que entra em campo na defesa dos direitos privados do grande empresário e passam a matar os que se revoltarem, inclusive queimando seus corpos. A disputa se segue com frequentes assassinatos autorizados pelo governo enquanto os povos desapropriados se reúnem influenciados também por narrativas religiosas que os faziam acreditar na relação sagrada entre seu povo e as terras. Qualquer semelhança com a realidade atual não é mera coincidência. Desde os colonizadores, até a estruturação do exército brasileiro e da posterior polícia militar, temos um grupo organizado e financiado pelo próprio governo para combater violentamente a própria população. A militarização que o país sofre com a ascensão do governo de direita ao poder reitera todas as violências contra as quais os movimentos sociais lutam frequentemente.

Quando a figura do monge surge na dramaturgia contada, impossível não lembrar de Antônio Conselheiro, líder religioso e figura emblemática na Guerra de Canudos, conflito onde, mais uma vez, o Exército Brasileiro se coloca contra a população marginalizada pelo próprio país.

Mas, a história não pode ser vista com olhos inocentes, os projetos políticos estruturam muito mais do que um jogo de afetos e em um efeito espiralar, estamos revivendo as mesmas mazelas não resolvidas continuamente. Como essa rede de complexidade e contradições podem permear a contação de uma história como essa no teatro? O direito ao mínimo de terra como princípio básico não instaura uma completa autonomia dos indivíduos e liberdade para exercer suas singularidades, portanto, retratar situações “felizes” como sinônimo de ausência de conflito ou na constituição de famílias esconde a dialética da realidade. Iniciar a história a partir de uma mestiçagem aceita e instituída, afirmando que ali havia caboclos com suas terras e famílias “felizes”, nos faz pensar “de onde eles vieram?”. Brasil é terra indígena por direito, tendo sido colonizada, a dizimação dos povos indígenas se deu também pelos processos de embranquecimento e desapropriação cultural dos sujeitos. O próprio núcleo familiar e uma violenta procriação tornam-se base para uma colonização dos corpos, fazendo surgir aqui um outro povo já marcado por uma aniquilação. Então, esse antes, que por vezes é também ignorado na história, já revela os passos que se seguiram e se repetem.

A expropriação não é um fato pontual na história do país, é um projeto sistemático de eliminação de comunidades e marginalização. Não há, novamente, como não lembrar das sucessivas desapropriações na cidade de São Paulo, onde comunidades inteiras sem moradia ocupam prédios privados abandonadas, há mais imóveis desabitados do que gente em situação de rua – mais casa sem gente do que gente sem casa – populações ribeirinhas são retiradas de suas moradas para dar lugar a imensas construções, muitas vezes, contraditoriamente, construções de prédios públicos. Favelas que se organizam nas margens das cidades, com estruturas precárias e que radicalizam a paisagem desigual e materializam um espelho do processo de segregação social e racial que esse país insiste. Ainda em São Paulo, a Cracolândia, um grupo de quase duas mil pessoas em situação de rua que se estabeleceram no centro da cidade, tem sido alvo de ataques constantes da polícia (a mando do governo estadual e municipal) que buscam desintegrar o grupo em uma tentativa surreal e violenta de que esses corpos apenas desapareçam, se desmanche no ar. A desapropriação e dizimação como citada em “Contestados” é projeto político recorrente no país e suas implicações precisam também ser contestadas em cena e fora dela.

Mesmo com uma abordagem dramatúrgica que poderia contemplar mais radicalmente os atravessamentos que a narração do fato histórico suscita no seu próprio passado e no momento presente; a pesquisa e o projeto da Cia. Mútua em trazer para a cena essas histórias apagadas e construindo ainda uma outra sequência imagética para materializar esse percurso, é uma ação que não deve ser abandonada, mas notada com mais atenção e interesse; inclusive dando mais espaço ao teatro de animação e suas formas de reapresentação do mundo em circuitos e festivais de teatro pelo país.

Crítica de "Contestados" - por Diogo Spinelli


 

Desenterrando a História

Crítica de Diogo Spinelli para Contestados, da Cia Mútua (Itajaí/SC)


1: Há pouco mais de um mês, acompanhamos na mídia nacional as notícias sobre a morte do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Philips. Desaparecidos na região do Vale do Javari, segunda maior terra indígena do país, localizada no estado do Amazonas, os dois foram mortos a tiros e tiveram seus corpos queimados e enterrados. No contexto dos assassinatos, estão as denúncias de ambos à pesca ilegal, ao roubo de madeira e ao avanço do garimpo na região.

2: Mesmo com a grande articulação de povos indígenas contra a aprovação da PL 490/2007, que geraram uma série de protestos em junho de 2021, o projeto de lei também conhecido como “Marco temporal”, apoiado por mineradoras, grileiros, pecuaristas e demais empresários, ainda segue em discussão no Congresso Nacional. Sendo aprovado, o projeto impedirá o reconhecimento legal de terras tradicionais dos povos originários, caso essas não tenham sido estabelecidas antes da Constituição de 1988.

Esses são apenas dois fatos recentes que me vieram à mente enquanto assistia à Contestados, da Cia. Mútua (Itajaí/SC), e que exemplificam o quanto as disputas por território regadas a interesses do capital estrangeiro permeiam toda a história de nosso país, em uma linha sucessória de eventos que persiste até hoje – e que ganha especial força e incentivo sob governos federais como aquele sob o qual estamos.

Contestados traz à cena a história da Guerra do Contestado (1912-1916), conflito armado com saldo de mais de oito mil mortos, ocorrido no oeste do estado catarinense, em uma área disputada ente os estados de Paraná e Santa Catarina. A guerra teve início após o governo nacional ter concedido à empresa construtora da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande a posse da terra de ambos os lados da linha do trem, numa área demarcada pela extensão de quinze quilômetros de cada lado da linha férrea.

Assistindo à obra – e pesquisando mais sobre a guerra para poder escrever esse texto – penso sobre como desconhecemos os conflitos nos quais nosso país esteve envolvido, sejam eles internos, sejam aqueles travados com nossos vizinhos latino-americanos. Isso, por sua vez, me faz lembrar de Caranguejo overdrive, da carioca Aquela Cia. de Teatro, que tem como pano de fundo a Guerra do Paraguai (1864-1870), e de todos os espetáculos da saga Os sertões, do Teat(r)o Oficina, baseados no livro homônimo de Euclides da Cunha que descreve a Guerra de Canudos (1896-1897), e penso sobre como, à maneira que ocorre em Contestados, o teatro tem assumido um papel importante no projeto de desenterrar fatos e momentos esquecidos da nossa história. Além disso, penso a quem interessa que sigamos desconhecendo nosso sangrento histórico de lutas que se arrasta até os dias atuais.

Mas voltemos à Contestados. Ao entrarmos no espaço cênico, somos recebidos pelas atrizes Laura Correa e Mônica Longo. Tendo o compartilhamento de um chimarrão como pretexto, as atrizes começam a travar com o público uma conversa acolhedora, onde aparecem questões sobre identidade e pertencimento: o que é ser de um lugar, o que é ser catarinense? Essa conversa serve como introdução ao tema da obra, que se desenrolará em sua maior parte através da contação da história da Guerra do Contestado tendo como base a técnica de teatro de formas animadas conhecida como “figura plana”.

Essa técnica – que eu nunca havia visto antes e sobre a qual passei a conhecer um pouco mais ao conversar com o terceiro integrante da Cia. Mútua, Guilherme Peixoto, após o espetáculo – é derivada da técnica de animação em papel, e consiste na manipulação em cena de desenhos pintados à mão, esculpidos a laser em placas de MDF. Se num primeiro olhar a proposta pode parecer menos dinâmica do que outras linguagens do teatro de animação, dada à característica estática dos desenhos, essa impressão se desfaz assim que começamos a ver como se dá sua operação em cena. Capaz de surpreender e de causar diversos efeitos cênicos, a técnica é utilizada com maestria no espetáculo, sendo um de seus principais pontos de atenção.

A montagem opta por contar a guerra exclusivamente sob o ponto de vista dos vencidos no conflito, conhecidos como caboclos – sendo importante mencionar que, segundo o site do IPHAN, no contexto catarinense o termo “[...]é mais utilizado para representar um ‘modo de ser’ do que para caracterizar um tipo racial”. Esse procedimento, acrescido do fato de ambas as narradoras colarem suas próprias imagens às desses sujeitos – ao ponto de parte da narração ser realizada em primeira pessoa, ao assumirem a voz de uma personagem fictícia presente no conflito – impedem que a história seja apresentada de maneira mais isenta e documental.

Isso faz com que a montagem recaia em certos esquematismos para contar uma história complexa e multifacetada, gerando algumas simplificações maniqueístas. Como exemplo, o tratamento de total adesão dado à figura do monge José Maria de Santo Agostinho, primeiro líder dos campesinos, faz com que não haja um crivo crítico do trabalho com relação ao messianismo inerente ao movimento retratado.

terça-feira, 26 de julho de 2022

Crítica de "Papelê - Uma aventura de papel" - por Diogo Spinelli


 

E agora, vamos brincar de quê?

Crítica de Diogo Spinelli para Papelê: uma aventura de papel, da Téspis Cia. de Teatro (Itajaí/SC)


Uma folha de papel em branco, prestes a ser preenchida com o que tudo o que nossa imaginação quiser.

Esse pode ter sido o ponto de partida para a criação de Papelê: uma aventura de papel, da Téspis Cia. de Teatro (Itajaí/SC), apresentado no 7º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha. Tendo o papel como matéria-base a ser explorada e transformada, a obra se utiliza de inúmeras técnicas do teatro de formas animadas para criar pequenas narrativas, ou brincadeiras.

Partindo de uma lógica de jogo, no qual tudo pode virar outra coisa, o elenco se diverte manipulando, metamorfoseando e dando vida a variados tipos de papel ao longo da montagem: papel luminoso recortado em formato de confete, caixas de papelão, um rolo de papel kraft, sulfites desenhados, bonecos de papel machê que remetem a dobraduras, dentre outros.

A incessante renovação de situações e de materiais remete às crianças que, após terem explorado determinado jogo até terem encontrado seu limite de interesse, perguntam-se o tempo inteiro: e agora, vamos brincar de quê? A diferença é que em Papelê não há tempo para esse questionamento, já que, mesmo sem que exista a preocupação de gerar qualquer tipo de nexo causal, as situações se sucedem com tanta organicidade, que passamos de uma coisa à outra sem muitas vezes nem nos darmos conta. Há, nesse sentido, algo de onírico no espetáculo: se o teatro de formas animadas já possui a tendência de nos transportar para o reino do fantástico e da imaginação, a vertiginosa dinâmica estabelecida em Papelê parece reforçar ainda mais esse aspecto de sonho.

Interessante também notar como, apesar de possuir no papel como matéria-prima seu ponto de ancoramento, é possível expandir o significado de papel presente no trabalho para aquele relativo ao jargão teatral, ou ainda para o sentido mais amplo de papel social. Ainda que o espetáculo inteiro possa ser lido sob essa chave – para além de sua vestimenta, o que faz com que reconheçamos um rei autoritário, ou uma heroína? – esse conceito de assumir diferentes papeis aparece com mais veemência em um dos momentos mais divertidos da montagem. Nesta cena, as atrizes estabelecem diversas relações entre si ao transformarem-se continuamente em distintos personagens através do simples ato de posicionar placas com diferentes figuras em frente aos seus rostos.

Aliás, essas placas/máscaras também são um elemento indicativo de outro trânsito que acontece no espetáculo: aquele entre os mundos analógico e digital. Tendo como inspiração a linguagem dos emojis, é surpreendente perceber como o grupo conseguiu atribuir potência cênica a esse elemento utilizado de forma tão banalizada em nosso cotidiano. Cabe dizer que a obra foi concebida em meio à pandemia de Covid-19, fator que certamente deve ter influenciado seu processo de criação no sentido de aproximar ainda mais a cena dos elementos do universo virtual. Outro exemplo disso é o uso das projeções, como na cena que remete aos jogos de videogames – que por sua vez, aparecem sobrepostos a referências à linguagem dos quadrinhos.

Da metade para o fim da peça, algumas das figuras que já apareceram em algum momento anterior da obra começam a reaparecer em rápidas inserções. Quando a primeira delas ressurge em cena, escuto uma criança atrás de mim comentar: “de novo, esse?”. Sorrio pensando sobre como, apesar da enorme variedade de situações, figuras e materiais presentes no trabalho, existe nas crianças uma inesgotável ânsia por novidades. Talvez, isso faça parte do nosso processo de conhecer o mundo: o que mais há para descobrir?

Após compartilhar com as e os espectadores uma porção de possibilidades lúdicas, ao final de Papelê o trabalho parece fazer um convite: “Essa foi a nossa brincadeira. Daqui em diante é com vocês: vão brincar de quê?”.

Crítica de "Papelê - Uma aventura de papel" - Por Heloísa Sousa

 

PAPELÊ – UMA AVENTURA DE PAPEL

Téspis Cia. de Teatro (SC)



[Infinitas Dobraduras]


Em 2021, tive a oportunidade de assistir ao espetáculo “Papelê – Uma Aventura de Papel” da Téspis Cia. de Teatro (SC), durante a programação do XIV Festival Velha Joana (MT). Na ocasião, ainda estávamos com medidas muito restritas de isolamento social por conta da pandemia do covid-19 e o festival foi realizado em formato virtual. Portanto, assisti à filmagem da obra. Neste ano de 2022, marcado também pelo retorno aos festivais em formato presencial, pude assistir ao mesmo espetáculo no Teatro Municipal de Itajaí durante a programação do Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha.

A perspectiva frontal que o espetáculo adota não me fez ter tanto prejuízo na fruição em relação a filmagem; pude rever as cenas que estavam na minha memória, rir junto com o público naquele momento e me reconectar com a primeira experiência.

A obra, direcionada ao público de todas as idades, traz três atrizes em cena manipulando o papel de diferentes formas para criar diversos jogos, aparências e brincadeiras. Assumindo figuras que se vestem de modo semelhante, não usam a linguagem verbal convencional, mas sonoridades; elas transitam entre imagens, ao invés de histórias. Notável a recorrência de duas ou três atrizes nas obras para o teatro infantil e ainda a opção por uma atuação onde o adulto se assume criança. Esse assumir-se como criança carrega o perigo do estereótipo e da abordagem caricata, por oferecer uma atuação muito expansiva. A visão do adulto sobre a criança não é a visão da criança sobre si mesma.

A fragmentação e acúmulo de situações continua sendo aqui uma recorrência no teatro infantil, mas dessa vez, as imagens formadas são prioridade em detrimento da narração de algo. Não há uma preocupação moralista, mas saltos entre os jogos aos moldes da atenção das crianças. Essa escolha parece uma aposta do teatro moderno e vanguardista para a cena infantil, onde não há nada a ser dito de fato, mas sim a ser experimentado. E talvez essa aposta seja uma das que torna a obra interessante entre outras encenações para esse público, pois replica uma forma despretensiosa de vivenciar o mundo.

Se aproximando do fluxo de brincadeira comum as crianças, elas manipulam papeis de modo a tentar elencar possibilidades de uso/jogo. O papel como roupa, como invólucro, como boneco, como caixa, como adesivo e até a transposição da superfície do papel para as telas. O papel, na realidade, é tido como superfície de projeção da imaginação, maleável como o tecido, riscável como a parede, ou até rígido como o gesso. Talvez por isso, em versões tecnológicas seja a tela que substitui o papel da fotografia, do livro, do desenho, do caderno. A metáfora da “folha em branco” cria contornos tridimensionais nessa obra.

Destaco então o trabalho com os bonecos de papel. Acompanhando a programação do Festival Toni Cunha, o teatro de animação também aparece em cenas de “Cor de quê” e “Contestados”. Além da cenografia impressionante de “Para contar estrelas” com suas maquinarias cênicas. O teatro de animação tem um lugar importante na produção artística e teatral de Santa Catarina, em especial de Itajaí. A feitura singular e a técnica impecável com essa forma teatral revelam outras possibilidades de fruição estética e reorganiza o olhar para essa outra dimensão, criando camadas de percepção que não me eram habituais no teatro. Importante pensar em estratégias para que esse teatro volte a circular de modo relevante em outros festivais nacionais, sendo inclusive pensado para o público adulto como faz a Cia. Pigmalião de Belo Horizonte.

Festival de Teatro Toni Cunha apresenta espetáculos locais nesta quarta-feira (27)

Programação é dirigida a adultos e tem entrada gratuita

O 7º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha segue com um a série de atividades nesta semana. A programação desta quarta-feira (27) começa com o “Café Criativo” com o grupo Os Buriti (DF), às 10h, na Itajaí Criativa. À tarde, às 14h30, tem “Clube de Leitura” com a Editora Javali, de Belo Horizonte (MG), na Casa da Cultura Dide Brandão. Já na parte da noite serão apresentados dois espetáculos de grupos de Itajaí, ambos com entrada gratuita, e será lançado um livro, no Teatro Municipal.



O primeiro espetáculo é o “Rinha”, do Grupo Risco de Teatro, às 20h. Em um procedimento documental, os atores da companhia ouviram de dois lutadores relatos de suas experiências com a masculinidade. Suas histórias são golpes da memória, sombras da infância, afetos quebrados e expectativas tóxicas transformadas em jogo performático pelos atores-documentaristas. A classificação indicativa é de 16 anos.

Em seguida, às 21h, a atriz Melize Zanoni lança, no Festival, seu livro “De monstros e fantasmas: o corpo grotesco no teatro e a sobrevivência da imagem sob a ótica de Georges Didi-Huberman”. Na obra, a autora relaciona os conceitos de sobrevivência da imagem, imagem crítica e imagem dialética, cunhados por Walter Benjamin (1892-1940) e Georges Didi-Huberman (1953), aos elementos utilizados no teatro e nas artes de estética grotesca.

A Karma Coletivo de Artes Cênicas encerra a programação da quarta-feira, às 22h30, com a peça “Proibido Acesso”. Com direção de Mauro Filho, o trabalho construiu-se como um espetáculo para adultos e, por isso, tem classificação indicativa de 18 anos. Os espaços públicos e privados, os encontros, a proibição dos encontros e do sentir, o desejo e tudo que fica escondido sob o escuro permeiam o trabalho, com elementos da performance, do teatro e até da dança, onde somam experiências.

Os ingressos gratuitos serão distribuídos uma hora antes da apresentação, com público limitado (100 vagas).




Confira a programação do 7º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha de quarta-feira:

27/07 (quarta-feira)
10h – Café Criativo - Os Buriti Produções Artísticas (Brasília/DF) - Itajaí Criativa/Residência Artística - gratuito

14h30 – Clube de Leitura com a Editora Javali (Belo Horizonte/MG) - Casa da Cultura Dide Brandão - gratuito

20h – Espetáculo Rinha - Grupo Risco de Teatro (Itajaí/SC) - Classificação: 16 anos - Teatro Municipal de Itajaí - gratuito

21h – Lançamento do Livro “De Monstros e Fantasmas” de Melize Zanoni – Teatro Municipal de Itajaí - gratuito

22h30 – Espetáculo Proibido Acesso - Karma Coletivo de Artes Cênicas (Itajaí/SC) - Classificação: 18 anos - Teatro Municipal de Itajaí - gratuito


Roda de conversa reúne organizadores de festivais de teatro de diferentes regiões do país

Atividade do 7º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha ocorre nesta terça-feira (26)

Como democratizar acessos em eventos de teatro? Como estabelecer intercâmbios, aproximar grupos, criar e consolidar redes? É possível olhar para todas as regiões do Brasil ao relacionar trabalhos em uma programação? Estas são algumas das perguntas norteadoras da mesa redonda “Diálogos Urgentes”, que acontece nesta terça-feira (26), às 15h, na Casa da Cultura Dide Brandão. A atividade do 7º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha envolverá seis convidados de renome nacional no segmento. A participação é gratuita e aberta ao público interessado.


O diálogo terá como convidados: Fernando Zugno, do festival Porto Alegre em Cena (RS), Luiz Bertipaglia, do Festival de Londrina - FILO (PR), Felipe de Assis, do Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia – FIAC (BA), Vicente Carlos Pereira Júnior, do SESC Nacional (RJ), Carlos Antônio Moreira Gomes, do Itaú Cultural (SP), e Denise da Luz, coordenadora geral do 7º Festival Toni Cunha, representando a Câmara Setorial de Teatro e Circo de Itajaí (SC).

Receberemos estes importantes convidados para pensarmos juntos como atingir a descentralização. É uma alegria e uma honra termos aqui conosco alguns dos maiores programadores de eventos de artes cênicas do país. Este processo motiva reflexões e mudanças práticas frente às realidades artísticas tão diversas”, comenta Denise da Luz, atriz e coordenadora desta edição do Festival de Itajaí.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha inicia a semana com espetáculo do Grupo Lume

A programação inclui ainda clube de leitura e bate-papos com companhias da mostra nacional


A programação do 7º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha inicia na segunda-feira (25) com diálogos do “Café Criativo”, encontros do “Clube de Leitura” com a Editora Javali, de Belo Horizonte (MG). O grupo convidado Lume Teatro, de Campinas (SP), encerra a noite com a peça “Kintsugi: 100 memórias”, às 20h, no Teatro Municipal de Itajaí, com reapresentação do espetáculo no mesmo horário e local, na terça-feira (26).

“Kintsugi: 100 memórias” é o espetáculo convidado do festival e traz uma proposta cênica que, partindo dos limites da teatralidade e de modo fragmentário, tenta aproximar-se de uma ideia de memória não linear nem bucólica, mas sim uma memória que apresenta o gesto da vontade no ato de lembrar.

Depois de muitos anos, o Lume retorna à Itajaí. A classificação do espetáculo é de 14 anos e será cobrado ingresso a preço popular. Haverá duas sessões, segunda-feira (25) e terça-feira (26), com limite de 100 pessoas por apresentação.




A oficina Clube de Leitura Dramática, ministrada pela Editora Javali, inicia na segunda-feira (25) e segue até quinta-feira (28), na Casa da Cultura Dide Brandão. O Café Criativo com os encontros de diálogo e dinâmicas com grupos de teatro nacionais seguem ocorrendo diariamente até o fim do festival.

Terça-feira (26) à tarde, acontece a roda de conversa Intercâmbios Urgentes, que pretende fomentar reflexões e refletir e trocas sobre as realidades artísticas de diferentes regiões brasileiras. Seis profissionais convidados de diferentes regiões do Brasil debaterão juntos como atingir a descentralização artística.

Ainda na terça-feira (26), às 22h30, será apresentado na Itajaí Criativa o espetáculo “Homens Pink”. A peça desenrola-se a partir dos depoimentos de um grupo de senhores gays. No corpo-arquivo em cena, narrativas conectam-se a acervos pessoais e compõem um documento performativo que celebra a experiência dos pioneiros e o orgulho das ancestralidades dissidentes. A entrada é franca e a classificação indicativa de 14 anos.



Nos espetáculos com entrada gratuita, os ingressos serão distribuídos uma hora antes da apresentação. As entradas para as peças que estarão no Teatro Municipal podem ser adquiridas pelo site Ingresso Nacional (www.ingressonacional.com.br) e na bilheteria do teatro. O valor é R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia entrada para os casos previstos por lei ou mediante a doação de 1kg de alimento ou um pacote de absorvente).

Confira a programação do 7º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha:

25/07 (segunda-feira)
10h – Café Criativo - Cia de Teatro Acidental (São Paulo/SP) - Itajaí Criativa/Residência Artística – gratuito

14h30 - Clube de Leitura com a Editora Javali (Belo Horizonte/MG)- Casa da Cultura Dide Brandão

20h – Espetáculo "Kintsugi: 100 memórias" - Lume Teatro (Campinas/SP) - Teatro Municipal de Itajaí

26/07 (terça-feira)
10h – Café Criativo - Lume Teatro (Campinas/SP) - Itajaí Criativa/Residência Artística

14h30 – Clube de Leitura com a Editora Javali (Belo Horizonte/MG) - Casa da Cultura Dide Brandão

15h – Roda de Conversa Intercâmbios Urgentes - Fernando Zugno (Festival Porto Alegre em Cena/ RS), Luiz Bertipaglia (Festival de Londrina FILO/ PR), Felipe de Assis (FIAC/ BA), Vicente Carlos PereiraJúnior (Sesc Nacional), Carlos Antônio Moreira Gomes (Itaú Cultural) e Denise da Luz (Festival Toni Cunha/ SC) - Casa da Cultura Dide Brandão

20h – Espetáculo "Kintsugi: 100 memórias" - Lume Teatro (Campinas/SP) - Teatro Municipal de Itajaí

22h30 – Espetáculo Homens Pink - La Vaca Companhia de Artes Cênicas (Florianópolis/SC) - Classificação: 14 anos - Itajaí Criativa/Residência Artística